"«És tão linda», disse-lhe. E ela, do fundo de toda a sua desconfiança diz «Aos olhos do teu ser, talvez seja.». A minha vontade é a de lhe abrir a cabeça e escrever-lhe directamente naquele seu tão estranho cérebro que ela é a rapariga mais bonita à face da terra, mas é a sua teimosia, com qualquer coisa de persistência, insistência, insegurança (e verdade) que lhe vedam o olhar ao espelho. Respondo-lhe «E aos meus olhos não te basta?» e, com a subtileza do seu olhar diz-me «Se tu fosses real na minha vida, bastava.».
Sempre insegura, esta pérola do meu ser, aliás de si própria, mas no meu ser. Tive vontade de a apertar mais junto de mim, de a conservar mais junto do meu abraço, mas só havia uma forma de ficarmos mais próximos um do outro, e essa mesma forma eu sabia que ela não permitiria e, na altura, nada ia resolver. Eu podia gritar ao mundo que gostava dela, mas não faria qualquer diferença, ela nem queria saber. Deixara de acreditar que nós, homens, podemos sempre ser bons. Acreditava, naquela sua insistente maneira de ser, e encantadora alma, apenas que haviam bons momentos que os Homens podiam criar. Não era capaz de ver em cada um algo mais do que conjuntos de ações. E já não me custava que ela me tivesse derrotado o ego com o seu discurso de «Nenhum de nós é boa pessoa. Apenas uns fazem melhores escolhas que outros e isso define o caminho para sermos boas pessoas. A primeira condição para aspirarmos ser boas pessoas é nunca o termos sido.». E aquele seu discurso deixava-me sem forças e sem condições de a derrubar. Do alto do meu ser, começava sempre por me ofender. Depois tudo mudava e eu acabava sendo um ser que não existe. Um ser que apenas subsiste na sua ideia, porque percebia o quanto derivava da minha existência, e o quão possível era mentir-lhe para obter o que dela queria. Ela tinha motivos para não acreditar em boas pessoas. Todo e qualquer ser é capaz de mentir e enganar só para ter o que quer. Não digo que o faça, nem ela mo disse, mas conseguem. E quando me apercebi disso, já tanto havia acontecido... E as suas inseguranças, não as consegui eu calar. E foi como se eu não me soubesse expressar. Saberá ela o que quero eu?»."
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