Voas-me da mão, meu pequeno colibri. És livre, insisto que tenhas essa tua liberdade. Voas da minha mão, novamente. E já voaste tantas vezes, e já regressaste tantas outras. E já foste tu, e já te misturaste com as gaivotas. E neste dia que andas a passear sem perdão, eu não sei como te dizer o que se passa no meu coração. O meu coração, que tem o teu nome escrito, tem cicatrizes e histórias de quem já foi ao chão e de quem já se levantou. O meu coração, onde tão bem te escreveste, tem medo da queda e truques para a subida. O meu coração, onde tão bem pertences, tem hábitos vincados, e já foi maltratado. Do que lhe ficou e das lições que aprendeu, sabe agora distanciar-se, para que a cabeça não pare, e sabe voltar ao sítio quando é necessário.
Está revoltado contigo, pequeno colibri, mas a cabeça sabe bem controlar este pequeno saltitão. A cabeça já domina o egoísmo do coração. A cabeça aprendeu a dizer 'não' ao coração, e é por isso que ele vai repousar esta noite, junto dos livros por quem não morre de amores. Vai repousar, para que a cabeça se mantenha a ativa e para não prejudicar a minha vida. Vai pôr-se à margem do mundo, vai dormitar. A cabeça já decidiu que vai continuar a deixar o colibri voar. E o coração já percebeu que nem vale a pena refutar. O coração vai amansar, e o colibri vai voar, e o sol vai raiar e eu vou descansar.

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